carta aberta aos meus ancestrais
Não escrevo esta carta para um destinatário só. Escrevo para quem vier depois de mim, para quem está ao meu lado agora, e — de certa forma estranha — para quem já se foi há muito tempo e nunca vai ler isto, mas que, sem saber, escreveu cada linha da minha existência antes de eu nascer.
Há alguns meses comecei a puxar os fios da minha própria história. O que era curiosidade virou um hábito quase obsessivo: nomes em livros de batismo, sobrenomes que mudam de grafia entre um porto e outro, cidades que existem só em registros antigos. Descobri que o sobrenome Zanetti veio do Vêneto, que os Carone (ou Caroni) atravessaram o oceano vindos da Puglia, que Figo e Góes remontam a Portugal, e que os Domingues carregam, segundo o que se conta, uma ascendência indígena que os documentos formais nunca registraram com o devido cuidado. Cada nome desses não é só um dado genealógico — é uma decisão que alguém tomou de embarcar, de ficar, de recomeçar, de resistir.
E não fiz essa jornada sozinho. Ao lado da minha esposa, Cássia, também investigamos as raízes dela: os Prado e Franco, de Itatiba, onde um antepassado — Romildo Prado — chegou a dirigir um jornal da cidade e teve até uma rodovia batizada em sua homenagem; e os Aguado, de origem espanhola, que fecham outro ramo dessa árvore que ainda estamos desenhando. Pesquisar a família do outro é, de um jeito só possível quando se ama alguém, pesquisar também o próprio destino — porque são essas duas histórias que vão se entrelaçar em quem viermos a ser daqui pra frente.
Por que isso importa? Porque vivemos numa época que trata a memória como algo descartável. Trocamos de cidade, de emprego, de identidade digital, e às vezes esquecemos que nada disso nasceu do nada. Cada escolha profissional, cada traço de personalidade, cada gosto por uma comida ou desconforto com um lugar tem uma origem que atravessa gerações — mesmo quando não conseguimos nomeá-la. Saber de onde viemos não é nostalgia vazia. É entender que somos uma continuação, não um ponto de partida.
Há um tipo específico de humildade que vem de olhar para trás e perceber o tamanho do que foi feito para que a nossa existência fosse possível. Alguém atravessou um oceano sem saber se voltaria a ver a família que deixou. Alguém sobreviveu a fomes, guerras, mudanças de regime, perdas que nem imaginamos. Alguém, num tempo em que isso não era registrado com dignidade, teve sua origem apagada dos documentos oficiais — e ainda assim deixou descendência, deixou traços, deixou histórias que sobrevivem em fragmentos e boatos de família até hoje. Nada disso foi garantido. Tudo isso foi, de alguma forma, um ato de teimosia com a vida.
Respeitar quem veio antes não significa idealizar o passado ou fingir que tudo foi virtuoso — famílias carregam também silêncios, dores e escolhas que hoje talvez não repetiríamos. Respeitar é reconhecer que essas pessoas existiram, que tiveram nome, rosto, medo, esperança, e que sem elas — sem cada uma delas, sem exceção — eu simplesmente não estaria aqui escrevendo isto.
Por isso pesquiso. Não para construir um brasão de família ou provar nobreza nenhuma, mas para dar um pouco de dignidade a nomes que o tempo tentou apagar. Para que Zanetti, Carone, Figo, Góes, Domingues, Prado, Franco e Aguado não sejam apenas palavras em um documento de cartório, mas pessoas de verdade que atravessaram o tempo até chegar aqui.
E deixo essa reflexão para quem ler: procure saber de onde você vem. Pergunte aos mais velhos enquanto ainda há tempo de perguntar. Guarde os nomes, as histórias, os detalhes que parecem pequenos demais para importar. Porque um dia alguém vai querer saber quem foi você — e vai merecer encontrar mais do que silêncio.
Com respeito e gratidão a todos que vieram antes,
Diogo
Comentários
Postar um comentário