carta aberta aos meus ancestrais
Não escrevo esta carta para um destinatário só. Escrevo para quem vier depois de mim, para quem está ao meu lado agora, e — de certa forma estranha — para quem já se foi há muito tempo e nunca vai ler isto, mas que, sem saber, escreveu cada linha da minha existência antes de eu nascer. Há alguns meses comecei a puxar os fios da minha própria história. O que era curiosidade virou um hábito quase obsessivo: nomes em livros de batismo, sobrenomes que mudam de grafia entre um porto e outro, cidades que existem só em registros antigos. Descobri que o sobrenome Zanetti veio do Vêneto, que os Carone (ou Caroni) atravessaram o oceano vindos da Puglia, que Figo e Góes remontam a Portugal, e que os Domingues carregam, segundo o que se conta, uma ascendência indígena que os documentos formais nunca registraram com o devido cuidado. Cada nome desses não é só um dado genealógico — é uma decisão que alguém tomou de embarcar, de ficar, de recomeçar, de resistir. E não fiz essa jornada sozinho. Ao lad...